A Abrir...

‘As pessoas dizem que amor é muito diferente do ódio e eu, com franqueza, não concordo nada. Acho que são gémeos falsos, é mais isso. Nasceram no mesmo dia, são filhos da mesma mãe, e por uma sorte que nunca saberemos explicar, não saíram iguaizinhos nem usaram a mesma roupa. Foi sorte. Tiveram foi vidas diferentes. O amor é claramente a rapariga que encontra o homem dos seus sonhos, um ricaço, que lhe faz filhos lindos, com sorrisos incríveis e largos, que cheiram a classe, que frequentam colégios caros e cujo pai, o tal ricaço, tem obviamente uma amante com a qual passa fins de negócio e negócios inadiáveis. O ódio nem tempo para isso tem. E digo isto com profunda tristeza, porque estou convencido que o ódio podia ter sido um gajo porreiro, e o amor uma besta inqualificável. Mas não foi. E assim, o ódio é a besta e o amor o filho querido. Mas nem tudo são desvantagens no ódio. O ódio pode ser um amor e tem coisas maravilhosas. Uma delas, é nunca esquecer. E disso não tenham duvidas, o ódio se for bom, bem alimentado portanto, nunca se esquece. Já o amor, mesmo que seja bom, nada nos garante. Há amores muito lindos que se pensava serem para uma vida e vai-se a ver não duram mais que dois meses, enquanto que não conheço um único caso de ódio que tenha tido uma relação tão pouco duradoura, o que prova que mais depressa o ódio é para a toda a vida do que o amor. E porquê? Porque no ódio, as coisas são feitas com uma outra decência, com uma respeitável seriedade que quase já não existe no amor. O ódio é um homem sério de firmes convicções, o amor é um cheque em branco, que com a crise que se vê, quase sempre não tem cobertura. Daí que o ódio seja mais falado e tenha mais noticias na televisão. Nenhum telejornal que se queira sério liga muito ao amor. O amor é para as revistas cor-de-rosa, para a gente que aprecia futilidades ou para ser usado como fait divers no final do serviço noticioso. E a verdade é esta, no mundo em que vivemos, só o ódio pode abrir um telejornal e, quando muito, só como manobra de diversão, o amor a fechar. ‘

in ‘O Amor Nunca Abre Telejornais’ por Fernando Alvim

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